
É perfeitamente possível fazermos uma série de ações moralmente virtuosas e corretas quando temos o coração cheio de medo, de orgulho ou de sede de poder. O apóstolo Paulo quer nos fazer entender a condição natural do ego humano e como alcançar a visão transformada do eu através do Evangelho e não apenas por nós mesmos ou através dos padrões dos dias de hoje.
1. A condição natural do ego humano
É normal que o coração humano crie sua identidade em torno de algo que não seja Deus. O orgulho espiritual é a ilusão de que temos competência para conduzir a vida sozinhos, desenvolver nosso próprio senso de valor pessoal e descobrir um propósito grande o bastante para dar sentido à vida sem Deus. Isso só nos mostra que o nosso ego natural sempre está em busca de algo que lhe dê senso de valor, sentido e propósito. Porém, se tentarmos colocar qualquer coisa no lugar que é reservado somente para Deus, sobrará muito espaço e, com isso, continuaremos tentando preencher este vazio de todas as formas possíveis.
O ego humano é superinflado e vive chamando a atenção para si mesmo. O tal do ego ferido nos faz ter a a necessidade de uma constante auto avaliação nos atormentando todos os dias. O ego dolorido só existe quando há algo de errado com a nossa identidade e percepção do nosso próprio eu. O ego vive ocupado tentando preencher o sentimento de impotência e vazio que há por dentro; ele é incansável e faz de tudo para ser notado; ele nunca se sente feliz e vive chamando a atenção para si; ele é orgulhoso e competitivo; ele é frágil e qualquer coisa o fere.
Se estou dilatado com ar em vez de estar abastecido com algo sólido, não faz nenhuma diferença se estou superinflado ou desinflado. Complexo de superioridade e de inferioridade são basicamente a mesma coisa. Os dois resultam do fato de que a pessoa estava superinflada. A pessoa com complexo de superioridade está superinflada e corre o risco de ser desinflada; a pessoa com complexo de inferioridade já está desinflada. A pessoa com complexo de inferioridade declara aos outros que se odeia e declara isso também a si mesma. Se a pessoa está desinflada, isso significa que ela já esteve inflada. Desinflado ou em perigo iminente de ser desinflado é a mesma coisa e, portanto, fragiliza o ego (autor).
O ego é insaciável, é um buraco negro. Por mais que ele seja abastecido, sempre parece estar vazio. Em um dia temos a certeza de que somos alguém, mas no dia seguinte percebemos que se não continuarmos avançando, não somos ninguém. Mesmo quando nos tornamos alguém, ainda precisamos ser alguém.
O que me impulsiona na vida é o medo de ser medíocre. Esse medo é o que sempre me impele. Venço um de seus ataques e descubro-me como um ser humano especial, mas logo continuo me sentindo medíocre e desinteressante, a menos que faça outra coisa espetacular. Apesar de ter me tornado alguém, ainda tenho de provar que sou alguém. Minha luta não terminou e acho que nunca terminará (Madonna).
Segundo Paulo, o Evangelho transforma essa visão. Ele muda o nosso senso de valor próprio, a maneira como enxergamos a nós mesmos e a nossa identidade. Agora o ego funciona de uma forma totalmente diferente em Cristo.
2. A visão transformada do eu
Mas para mim não tem a menor importância ser julgado por vocês ou por um tribunal humano. Eu não julgo nem a mim mesmo. A minha consciência está limpa, mas isso não prova que sou, de fato, inocente. Quem me julga é o Senhor (I Co 4:3,4).
Para o apóstolo Paulo, a sua identidade não deve nada ao que as pessoas dizem, pois a sua autoconsideração e a sua identidade não estão ligadas ao veredicto e apreciação que as pessoas têm dele. Ele reforça que é um ministro de Deus e que tem um trabalho a realizar; ele nem mesmo julga a si próprio.
Portanto, Paulo não busca a sua identidade nos cristãos de Corinto e não espera que eles lhe deem o veredicto de que ele é alguém, pois não está buscando neles o sentido de sua identidade. Conquistar a autoestima seguindo apenas os nossos próprios critérios ou dos outros é uma grande armadilha. Ele diz que devemos buscar o nosso senso de identidade em Cristo. Isso porque nós estabelecemos os nossos padrões e depois nos condenamos quando falhamos, portanto, o ego nunca fica satisfeito.
Quando Paulo afirma que não admite ser julgado pelos coríntios nem por si mesmo, ele está dizendo que está consciente de seus pecados, mas não os conecta à sua identidade ou suas obras. Isso que dizer que seu ego não está inflado, mas sim, saciado. Portanto, ele afirma que alcançou um estágio no qual o ego não chama a atenção para si, pois quando ele faz algo certo ou errado, não mais relaciona o fato a si mesmo.
A essência da humildade resultante do evangelho não é pensar em mim mesmo como se fosse mais nem pensar em mim mesmo como se eu fosse menos; é pensar menos em mim mesmo. A humildade do evangelho mata a necessidade que tenho de pensar em mim. Não preciso mais ligar as coisas à minha pessoa. A humildade baseada no evangelho significa que não relaciono mais cada experiência e cada conversa à minha pessoa (autor).
Paulo diz: “Não me importo com sua opinião, mas também não me importo com a minha”. Ele diz que a sua identidade não deve nada ao que as pessoas dizem, pois isso não está ligado ao veredicto das pessoas. Ele nem mesmo julga a si próprio, pois não busca a sua própria identidade, mas a de Cristo através de suas obras. Isso nos mostra que quanto mais compreendemos o evangelho, maior é o nosso desejo de mudar. O autoesquecimento nos faz deixar de pensar que tudo gira ao nosso redor. Significa pensar menos em si mesmo.
Na verdade, deixo de pensar em mim mesmo. É a liberdade que vem do autoesquecimento. É o descanso bendito que somente o autoesquecimento nos oferece. A pessoa verdadeiramente humilde não é aquela que se odeia ou se ama, mas a que tem a humildade do evangelho. É uma pessoa que se esquece de si mesma (autor).
3. Como alcançar uma visão transformada do eu
Todos os dias estamos em busca de algo que nos afirme que somos importantes e valiosos, seja por alta ou baixa autoestima, nos colocando em um julgamento dentro de um tribunal devendo apresentar as provas para a nossa acusação e defesa. Na nossa cabeça, o nosso desempenho e as nossas ações nos levarão ao veredicto, mas ele nunca chega, pois haverá dias em que sentiremos que estamos vencendo e outros perdendo. Portanto, Paulo nos mostra o segredo mais uma vez:
O nosso julgamento já está encerrado e já deixamos o tribunal, pois o veredicto de que ninguém poderá nos justificar já foi dado. Isso quer dizer que nem nós mesmos poderemos nos inocentar, afinal, é o Senhor quem deve julgar. É somente no Evangelho de Jesus Cristo que o veredicto é dado antes de desempenharmos nossas ações. O veredicto já foi anunciado e agora o meu desempenho e minhas ações se dão com base nisso. Como Deus me ama e me aceita, não preciso fazer as coisas apenas para melhorar o currículo. Não tenho de fazer as coisas para parecer bom. Faço-as só pela alegria de realizá-las.
O nosso desempenho jamais alcança o veredicto supremo, pois somente no Cristianismo o veredicto nos garante o desempenho! A nossa identidade cristã e o autoesquecimento sobre nós nos retira do tribunal, pois este não é mais o nosso lugar. O julgamento acabou quando Jesus entrou em nosso lugar para tirar toda a condenação que cairia sobre nós!