
Ultimamente este se tornou um pensamento constante em minha cabeça. Com o tempo tenho aprendido que pensar muito sobre as coisas acaba não levando a nada e venho exercitando viver um dia de cada vez. Confesso que isso acabou se tornando um alívio para a minha saúde mental e um meio de combate contra a ansiedade, pois não tento mais desvendar o dia seguinte como se fosse o último. Mesmo assim, tentar controlar a mente e dosar os meus próprios sentimentos têm sido um desafio constante (e acredito que sempre será!). Sobre a dependência emocional, ainda me questiono a todo instante se isso seria um excesso de nós mesmos que transborda no outro ou se seria alguma falha de identidade. Pelo meu leigo conhecimento sobre as funcionalidades do sistema elétrico de um carro, não é dificil saber que um alerta vermelho piscando no painel indica atenção e que dirigir com falhas no motor pode ser perigoso. Tenho visto piscar este alerta e o ignorado há tempos enquanto rodo a quilometragem. Me acostumei com a ideia de que sempre é melhor correr do que ficar parada talvez como forma de recuperar o tempo perdido ou simplesmente pela pressa de viver. O pensamento de viver sempre na urgência e com o pé ao máximo no acelerador cansa e uma hora acaba se tornando um tanto quanto perigoso.
Não é fácil viver de inconstâncias e passar a viver sem essa pressa pode soar estranho ou até parecer perda de tempo. Quando finalmente você desacelera e o painel pára de piscar e aquela adrenalina da velocidade finalmente vai embora, nos perguntamos se ainda há algo de errado com o motor. E é neste momento que a paz e a tranquilidade tomam conta e os distúrbios emocionais constantes desaparecem. É como se fosse inacreditável sentir um alívio ao desacelerar. Você começa a observar que agora tem mais tempo ao invés de estar indo contra o tempo, começa a observar a paisagem em volta, presta mais atenção a cada curva pelo caminho e consegue frear ou desviar de algum buraco. Ao olharmos pela janela sentimos o vento bater no rosto e fechamos os olhos respirando fundo. Ao longo do trajeto começamos a perceber que aquele caminho que tanto estávamos dirigindo às pressas não nos levaria a lugar algum. E aí pisamos fundo no freio antes de chegar à beira de um precipício. Recolocamos as mãos ao volante e, com os olhos borrados pelas lágrimas, damos marcha à ré sem querer olhar pelo retrovisor. Quando enxergamos um novo caminho pela frente paramos de insistir em direções sem saída, entendemos que uma estrada completamente desconhecida pode ser melhor e sem pressa de chegar. Gosto dessa analogia porque me faz lembrar das diversas vezes em que sonhei que estava dirindo um carro desgovernado. Eu sentia prazer em dirigir, mas o caminho não parecia importar, pois eu sempre estava em alta velocidade. O pedal do freio sempre falhava e eu entrava em estado de pânico por não saber como parar. Algumas vezes o freio funcionava e eu conseguia evitar a colisão, já outras, o carro batia mesmo assim. A sensação sempre era a mesma ao acordar, um enorme alívio por não ter me machucado e por aquilo ter sido somente um sonho.
Volta e meia penso sobre a linha tênue entre a intensidade e a dependência emocional. Será que a intensidade nos dá verdadeiramente identidade ou nos tira de nós mesmos? Será que somos nós que estamos dirigindo o nosso próprio carro ou estamos sendo passageiros de outro motorista? A colisão irá nos dizer mais sobre nós ou sobre o outro? Sobre o espectro interior, posso falar sobre o rótulo de “dependente emocional” e de como aprendi a trocar a palavra “intensa” por “inteira”. Acho que a intensidade talvez não seja o meu maior “problema”, mas o ênfase que dou em pessoas e situações erradas. Talvez seja uma combinação perigosa (e é!) ter essas duas coisas convivendo juntas e me pergunto se seria possível viver saudavelmente mesmo com os sentimentos à flor da pele. O meu palpite seria: talvez! Afinal, uma se alimenta da outra e isso acaba se tornando um ciclo vicioso. Não que eu esteja tentando obter todas as respostas, mas sinto que preciso me entender cada vez mais, mas sem deixar de ser eu mesma.Toda vez que me questiono sobre isso, chego a conclusão que, no fundo, nunca vou ter a resposta certa (porque talvez não tenha mesmo!) e eu simplesmente deva aceitar isso como uma condição (e não como um problema ou um distúrbio) e que faz parte de mim para o resto da vida. Talvez eu deva me acostumar e tentar aprender a conviver com a minha imensidão. Não sobrevivo no breve, não me satisfaço com o pouco e não sei mergulhar no raso. Desconfio das pessoas que não se entregam, daquelas que são racionais demais e falam pouco. Para mim é como se tudo que eu tenho fosse o hoje e o agora e nada mais existisse depois daqui. Talvez isso assuste as pessoas rasas e afaste as ocasionais e não intencionais.
Talvez o que pulse mais aqui dentro seja uma mistura do imediatismo com ansiedade vivendo como uma bomba relógio dentro do peito. Será que a intensidade consegue sobreviver por muito tempo sem estar ansiosa e inquieta? Talvez. Acredito que exista uma dose certa para evitar se machucar, mas arrisco dizer que não há sentimento sem que não se sofra, pois quem sente demais tem pressa e anseia demais. Por isso não acredito que o “problema” seja a tal da intensidade em si, afinal, não é errado sentir demais. Acredito que os extremos entre se doar demais ou se perder demais sempre vão conviver juntos e é difícil separar um do outro. É como tentar descolar a pele do próprio corpo sem sentir dor. O erro talvez esteja no puro imediatismo como produto da ansiedade, onde enxergamos tudo de mais e não de menos e é aí que o caos é estabelecido. Devido à necessidade extrema da satisfação imediata, o vício das emoções intensas precisa cada vez mais ser saciado e parece não haver remédio para a dor da espera. Sustentamos nossos vícios emocionais tal como uma droga e ir contra eles nos faz entrar em abstinência, já que a dor de ficar sem aquela sensação se torna pior do que a primeira que já existia. É inevitável fazer com que não machuque demais, mas acho preferível conviver com a dor de ser quem eu sou do que enfrentar as consequências de tentar ser aquilo que não sou. Acredito que quanto mais as pessoas passam pelas nossas vidas, mais elas nos ensinam sobre nós mesmos. Aos poucos deixamos de ser quem éramos para nos tornarmos aquilo que já somos e não percebemos. E, de repente, a força que tanto fizemos para tentar caber em outro mundo será a mesma que irá nos libertar para sermos livres dentro do nosso. Será que o ordinário é suscetível de entendimento e a intensidade nos tornou todos loucos sob diferentes espectros? (…)