
Ao longo do tempo, principalmente nos 2 últimos anos até aqui, eu tive a certeza de que eu tinha desenvolvido ansiedade generalizada. Descobri a denominação TDAH recentemente, que é o tal do déficit de atenção e hiperatividade (no meu caso a hiperatividade é mental). Desde então fui pesquisar a fundo sobre o assunto. Percebi que eu me identificava com muitos dos sintomas. É o excesso de tudo: dos pensamentos, das preocupações, dos medos e das inseguranças. Descobri que a forma como a ansiedade atua acaba se tornando um ciclo sem fim, no qual ela nos leva da mania de perfeição até a procrastinação. Para mim começa quando penso em muitas coisas ao mesmo tempo e acabo não conseguindo manter a atenção em apenas uma coisa só, consequentemente não conseguindo fazer nada. Às vezes também acontece o hiperfoco, quando há concentração total em uma coisa só e não consigo sair daquilo. É um misto de 8 ou 80 em segundos que causa uma angústia e um desgaste mental muito grande. Pensei: e agora? Não foi fácil ter de saber e lidar com tudo isso.
Na verdade, a maioria dos pensamentos que vêm à nossa cabeça não condiz com a verdadeira realidade. É como se o cérebro fizesse um backup de todas as coisas do passado, do presente e do futuro e travasse o sistema. Eu me arrisco em dizer que se trata mais de uma preocupação excessiva acerca do futuro do que com o momento presente ou com o que já passou. O TDAH nos leva para qualquer lugar que não seja o aqui e o agora. Para mim, as consequências disso são cansaço mental, crises de humor e distúrbios do sono. É como se o cérebro sempre estivesse em alerta ensaiando algum tipo de situação que poderia ou não ocorrer. É como se o sistema entrasse em modo de defesa para combater algum tipo de vírus ou tivesse que ser reiniciado devido a abertura de muitas janelas e, por consequência, acaba causando lentidão e queda de performance. Eu enxergo assim o excesso de pensamentos. Como filtrar isso? Como deixar a máquina chamada cérebro não cansar de tanto pensar?
Confesso que é um desafio para mim todos os dias. Como se trata de um exercício diário, a constância seria a melhor aliada para conseguirmos relaxar e descansar a nossa mente. O tempo que investimos alimentando os nossos anseios e o ambiente ao nosso redor interferem drasticamente nos resultados. Às vezes quando temos mais tempo para fazer algo é quando procrastinamos mais. As ideias, os objetivos e os sonhos ficam soltos. A lente fica desfocada e isso traz um vazio existencial. No fim das contas há um longo tempo perdido sendo gasto com idealizações mais do que literalmente planejando algo ou cumprindo de fato. Isso é uma espécie de auto sabotagem, que é quando você deixa de fazer algo, seja esse algo pequeno ou grande, por simplesmente ter medo de fracassar. É aí que sentimos que simplesmente não saímos do lugar e tornamos a lutar contra o ciclo novamente, ou seja, ficar ansioso por não fazer nada e, após isso, não conseguir fazer nada por estar ansioso. A energia que foi canalizada não foi capaz de nos levar a realizar alguma coisa concreta e chegamos à exaustão mental.
A organização dos pensamentos e a limpeza do “lixo eletrônico” da nossa mente tem que ser feita todos os dias. Fui aprendendo que o básico é o que funciona. Eu simplesmente comecei a usar o TDAH a meu favor. A ideia é ir aos poucos. Aprendi que é com os pequenos hábitos que construímos coisas maiores ao longo do tempo. Aprendi a não ter tanto medo dos meus próprios pensamentos e me arriscar mais. Acho que boa parte das descobertas estão do outro lado do medo. Aprendi que precisava me organizar mais, assim parece que as coisas não ficam tão soltas e consigo ter uma melhor visualização delas. Aprendi que precisava planejar mais, assim teria mais chance de algo funcionar do que apenas eu pensar se daria certo ou não. Aprendi que é importante estabelecer uma rotina. A disciplina acaba sendo construída mesmo quando inicialmente não há motivação ou força de vontade. É aí que precisa da persistência para algo vir a se tornar um hábito.
Aprendi que manejar um tempo de qualidade evita o excesso de pensamentos negativos ou lembranças do passado. A ociosidade acaba sendo inimiga da mente. Ter hábitos saudáveis nos leva a ter uma saúde mental que irá nos capacitar para fazer outras coisas. Nosso corpo e a nossa mente são uma máquina funcionando juntos. Precisamos estipular um horário para dormir e para acordar, para fazer as refeições e praticar atividade física. Confesso que o mais difícil para mim sempre foi regular o meu sono, mesmo sabendo o quão isso é importante para a nossa disposição no dia seguinte. O mais fácil se tornou me alimentar saudavelmente, no qual sinto prazer, e fazer musculação, na qual se tornou uma terapia. Arrumar a própria cama ao se levantar, organizar a casa, ler um livro, escrever, cozinhar, etc também são coisas simples e saudáveis.
Aprendi que cada um tem uma vivência, que o processo é longo e que cada um tem uma velocidade. Me arrisco dizer que a prática não leva a perfeição partindo do ponto de vista de que se algo não sair perfeito já não merece ser feito. Para quem tem ansiedade isso acaba induzindo à procrastinação, se tornando uma espécie de auto sabotagem. Prefiro defender que a prática leva ao domínio e ao conhecimento. Aprendi que tempo sobrando não significa mais organização e que dá para se perder. Há uma linha tênue entre o hiperfoco e o desinteresse total. Aprendi que tudo o que a gente rega cresce e o contrário também. Aprendi que é necessário insistir mesmo sabendo que será difícil ou que não iremos conseguir dar o nosso melhor todos os dias. Eu acho que tudo pode ter uma variável e que não é todo dia que vamos conseguir ser altamente produtivos. Às vezes o nosso máximo vai sofrer nuances e não devemos nos cobrar tanto. Aprendi o quão importante é respeitar os nossos limites físicos e mentais, sabendo discernir o que o nosso corpo e mente precisam.
Foi assim que eu comecei a relaxar mais ou pelo menos tentar não deixar a ansiedade passar por cima de mim. Foi parando de me lamentar pelo o que eu deveria ter feito ou me culpar por erros do passado. Só o que somos agora e o que temos é o que realmente importa. É tomar cuidado para não repetir maus hábitos, é se policiar contra o excesso de pensamentos e tentar melhorar daqui pra frente. A ansiedade nos deixa irracionais e nos faz esquecer de onde estamos e até onde chegamos. Nos esquecemos de ser agradecidos pelas nossas vitórias e conquistas, no quanto fomos fortes para passar por todas as situações em que achávamos que não conseguiríamos e nos fazendo pensar no que ainda nos falta ter ou ser.
Boa parte do que minava meus pensamentos era o foco nas coisas erradas. Eu me cansei de apenas prestar atenção no que me faltava ou simplesmente só me concentrar nos problemas que a ansiedade do TDAH me traziam. Comecei a mudar o foco para o que eu poderia fazer para viver com tudo aquilo. Comecei a tentar mecanismos para enganar meus pensamentos, a tentar disseminar as lembranças ruins, a culpa, o medo, a insegurança e as preocupações. Comecei a questionar o fundamento de todas as coisas que eu criava na minha cabeça e tentei enxergar o que eu poderia fazer para acabar com os excessos. As perdas podem significar ganhos e, se algo não der certo hoje, posso tentar amanhã de novo. Enxerguei que não preciso ansiar por todas as coisas do mundo antes de dormir porque ele simplesmente não vai acabar se eu não conseguir. Enxerguei que me auto sabotar é deixar de viver aos poucos e que fazer coisas novas nos ajuda a viver mais. Acho que comecei a melhorar assim que dei uma chance para novos pensamentos, os bons e agradáveis.